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Artigos | Observações & Experiências (321)

Hartman, David | 01.08.2003

Multiplicidade Religiosa e o Milênio

David Hartman

O Milênio é símbolo forte da esperança, algo está sendo terminado e algo começa novo. A transição para um novo século desperta a sensação para novas possibilidades duma mudança. *

Muitas pessoas religiosas no mundo inteiro crêem que nos estamos movendo para tempos messiânicos, para o estabelecimento do Reino de Deus no mundo, e que as suas tradições religiosas particulares se imporão definitivamente. Para elas, tais esperanças e convicções pertencem ao cerne da sua fé em Deus.

Pode-se, porém, ver o Milênio como chance espiritual para pessoas de fé diferente: aprender a conhecer, entender e apreciar a importância de multiplicidade radical.

Andamos para dentro dum mundo no qual “o outro”, aquele que é distinto de nós, entra na nossa vida em tal medida, como não foi experimentado nunca antes na história. Não há precedente para a nova experiência da “globalização” e da experiência der ser exposto, por toda parte no mundo, a uma grande multiplicidade de tradições culturais. A universalidade não é mais conceito abstrato ou assunto de oração; faz parte da nossa realidade concreta de cada dia.

A pergunta que temos de fazer é: Como as grandes religiões do Ocidente preparar-se-ão para essa nova realidade?

A herança da intolerância

A Cristandade, o Islame e o Judaísmo têm histórias de fundação (founding stories), as quais, no cerne, excluem coexistência com outros. O passado nos legou herança da intolerância, a qual opõe uma tradição à outra.

A Cristandade começou com se chamar a si mesma o “novo Israel”. Reivindicava ter superado o “velho Israel”, o povo eleito repudiado do “Antigo Testamento”. Deus falaria, agora, pelas palavras de Paulo, e não mais pela Lei de Moisés, à humanidade. Agostinho via os judeus, especialmente o exílio e a humilhação destes na história, como prova viva da verdade da história (story) cristã. Os judeus não deviam ser excluídos do Estado de Deus, porque o seu estado desdenhoso daria testemunho para a verdade cristã.

Durante toda a história todos tendemos para justificar a existência de outras comunidades de fé, nas nossas categorias de pensar, pelo que asseveramos que as outras tradições seriam, sem que o soubessem, instrumentos divinos para o nosso triunfo definitivo próprio.

Na Idade Média, os pensadores judaicos viam a Cristandade e o Islame como veículos de divulgar a Bíblia, da língua cultural necessária, para semear a Palavra de Deus e a Toráh no mundo. Universalizando as categorias fundamentais da religião bíblica, preparavam, em resultado, o mundo para finalmente aceitar a visão (story) judaica.

Cada comunidade de fé, assim, percebia a outra a partir da perspectiva da sua própria história limitada. O “outro” não tinha importância por direito próprio. A verdade religiosa era “mercadoria escassa” que não podia ser compartilhada com outras tradições. O assunto único da discussão inter-religiosa era decidir quem realmente proporcionasse a verdade divina. A religião de quem conta a história (story) real? Quem é o profeta verdadeiro de Deus: Moisés, Jesus ou Maomé?

A imagem urbana de Jerusalém é ilustração falante dessa concepção de somas de zeros da verdade religiosa. A Cidade Velha é lugar apinhado, afogado. O Domo da Rocha está construído no lugar do Templo original, a igreja do sepulto está logo ao lado. Cada prédio parece pretender afogar os seus rivais. Está como se nenhuma religião pudesse suportar a presença da outra. A vivacidade do “outro” mina o senso do valor próprio, a raison d’être [razão de ser] dele.

Pode-se ler a história religiosa da cultura ocidental como história humilhante e feia de insegurança, ciúme e rivalidade. A presença de judeus, que viviam a sua própria tradição - celebravam o seu dia de shabát, os seus ritos, histórias, sonhos coletivos - foi experimentada como ameaça pelas outras comunidades de fé. “O quê estais fazendo aí? Não sois mais a comunidade escolhida por Deus!” e, vice versa, o Judaísmo dizia aos cristãos: “Credes realmente que a religião verdadeira se exprime nas hóstias que engolis ou na música de coro? Ou nas catedrais e ‘imagens de ídolos’ que produzis para servir a Deus?” E o Islame disse a Israel: Não sois realmente as crianças escolhidas de Abraão! Nós o somos! Falsificastes a Escritura propositadamente, para demonstrar que Isaac, e não Ismael, é o sucessor espiritual de Abraão!”

Essa rivalidade ideológica desbocou numa luta sem fim pelo controle da Terra Santa e especialmente da Cidade Santa. E o controle de Jerusalém era o sinal de ser escolhido por Deus para divulgar a Sua vontade na terra. Assim, a história mostrava que Jerusalém era, menos Cidade de Paz, mas sim cidade de guerra, cheia de briga, ódio e “guerras santas”. A terra prometida chegou a ser terra de intolerância.

Aprender a contar a história de outro modo

O ponto decisivo do Milênio é se nos pudermos livrar dessas convicções e costumes tradicionais; todos eles implicavam que haja somente uma única história sobre Deus e a revelação, e que os fiéis devam crer no triunfo final da sua tradição religiosa especial.

A Cristandade precisa refletir no seu entendimento tradicional do Judaísmo e dos judeus. O Islame, o qual remeteu os “povos do livro” a um status secundário, precisa rever a sua relação ao Judaísmo.

E também os judeus precisam avaliar de novo as implicações da sua noção de escolha e aliança. Também entre nós, muitos líderes religiosos e professores são vítimas duma concepção limitada de Deus e da vida religiosa. Mulheres do movimento conservativo e da Reforma, as quais quiserem orar no Muro Ocidental, não estão sendo bem-vindas. Grupos de Oração igualitários estão sendo vistos como elementos subversivos, os quais pretendam destruir a santidade de Jerusalém. Judeus que vêm dos quatro cantos do mundo - “os exilados recuperados ao lar” - estão sendo chamados de “gangsteres e prostitutos”. Como o diabo que cita a Escritura, fanáticos têm poucos problemas com esconder agressão e intolerância sob o manto da piedade e santidade religiosas.

Sei que nós judeus ainda não temos desenvolvido concepção alguma duma aceitação do “outro”. Mas isso não deveria impedir a trabalhar duramente na criação duma visão religiosa, a qual aponte nessa direção. Ainda não temos construído comunidades religiosas, nas quais a aceitação do “outro” e a alegria sobre a multiplicidade andem de mãos dadas com piedade genuína e dedicação religiosa. O espírito que dirige o trabalho de educação e pesquisa no Instituo Shalom Hartman, procura caminhos nos quais possamos transmitir a força da nossa tradição sem desvalorizar “o outro”.

Isso é hoje a tarefa de cada pensador religioso. Cada um de nós precisa tentar contar a história (story) diferentemente, sem, contudo, esvaziá-la do seu conteúdo espiritual e vivacidade. Um estranho poderia reparar: “Se não quiseres a tua história (story) como ela é, porque não a abandonas completamente?”

Ninguém de nós quer abandonar as suas histórias ou tradições próprias, especiais - por causa das nossas profundas ligações religiosas e por causa da nossa crença de que nelas tem algo de obrigatório e altamente importante. Pelo que precisamos lutar é descobrir se os aspetos importantes e simpáticos da nossa tradição tenham necessariamente a conseqüência de desvalorizar as histórias e tradições que não são as nossas.

Não me estou dedicando a nenhum engano de crer que isso seria tarefa simples. Depois das experiências passadas e hodiernas parece ser assim, que o engajamento heróico e apaixonado cresça de reivindicações e convicções absolutistas. Se bem que pluralismo religioso e abertura intelectual apóiem decoro e cortesia, parece que andem de mãos dadas com ligações religiosas mornas.

Apesar disso, precisamo-nos esforçar para desenvolver formas religiosas de ligação e paixão, as quais não exijam crer que só uma tradição reflita a verdade. A vivacidade duma ligação religiosa não é necessariamente função da sua exclusividade ou singularidade. A presença de outras tradições religiosas não precisa ameaçar a dedicação e ligação completas a uma tradição especial. A afirmação não inclui a desvalorização do “outro”.

Expectativas do milênio

Como escrevi muitas vezes, assustam-me verdades absolutas e expectativas exageradas. Sempre quando pessoas humanas afirmam que teriam as chaves ao Reino de Deus, acontecem coisas horríveis; não-crentes não só erram, são negadores de propósito da verdade e, portanto, inimigos de Deus ou da revolução. Só poucas outras concepções, na história, podem segurar também o “amor de Deus” na justificação de tantos atos de violência e crueldade. O marxismo moderno tentava superar esse recorde horrível em nome duma versão secular de salvação histórica e da salvação dum “homem novo”. A confiança na nossa capacidade de criar algo de absolutamente novo, uma sociedade justa, tem sido responsável por muitíssima violência e desumanidade.

Oro que as pessoas humanas testemunhem a sua fé dirigindo a sua esperança a Deus e e à mensagem do profeta Miquéias: “Fazer o reto, praticar o amor e andar humilde com o teu Deus” (6,8). Como pessoa religiosa, espero por um tempo em que os impulsos religiosos levem as pessoas a viverem com o “outro” em dignidade, quando a paixão religiosa esteja sendo orientada pelo mandamento “Ama o estranho!”

A regra decisiva não é “Ama o teu próximo!” - isso não deveria ser tão difícil, porque vizinhos mais facilmente são como tu - mas sim “Ama o estranho!”, àquele que se distingue de ti, que canta outro canto que tu, cujos rituais e visão do mundo se distinguem dos teus. Pode-se apreciar esses estranhos assim como são? Precisas adapta-los aos teus modelos familiares e cômodos?

As expectativas para o novo milênio se deveriam concentrar, não a uma experiência espiritual acentuada singular, mas sim a uma experiência refletida de quem aprende. Precisamos aprender a experimentar o amor reconciliador de Deus na nossa decisão cotidiana, não-dramática, de fazer a vida um pouco mais justa e simpátizadora. Tal obrigação não é aquisição pequena no mundo moderno. Requer renunciar à crença largamente divulgada de que a salvação e mudança totais das condições humanas seriam as naturais e autênticas pretensões religiosas. A vida cotidiana, antes o fim da história, precisa chegar a ser o alvo principal das nossas obrigações e anseios.

Aqueles que vierem à Terra Santa para chegarem a ser testemunhas oculares duma explosão de energias espirituais, dum céu novo e duma terra nova, serão decepcionados. A grande experiência, a qual os peregrinos de milênio poderão esperar a encontrar e levar de volta à sua pátria, é que uma experiência forte de fé não precisa excluir outras pessoas, declarando somente um único caminho, uma única verdade, como legítimo.

Precisamos aprender a desejar o milênio dizendo “Amém” ao fato de que Deus criou uma sinfonia de várias vozes e melodias.


* Do site web do Instituto Shalom Hartman, www.hartmaninstitute.com. Tradução: W. R. - R. David Hartman usa o conceito originado da teologia anglo-saxônica “story”. Entende o quadro de referência o qual interpreta o sentido e estabelece identidade duma religião; cf. Dietrich Ritschl, à lógica da teologia, 1984. Onde Hartman usa esse conceito em distinção à história (history) ou narração (story) o conceito inglês está sendo adicionado entre parênteses.

Fonte: BEGEGNUNGEN. Revista para Igreja e Judaísmo, n° 2, 2003.
Texto alemão. Tradução: Pedro von Werden SJ"nach


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