Modelo a se Perder ou Tarefa para o Futuro? À Semana da Fraternidade: O Diálogo Cristão-Judaico no Posto de Prova
Berndt Schaller
As relações entre cristãos e judeus no nosso país (Alemanha) parecem correr bem. Quem
o quis presenciar o pôde no domingo passado, na abertura da Semana da Fraternidade em Münster.
O Conselho Alemão de Coordenação, o grêmio teto das entrementes mais que oitenta
associações para a cooperação cristã-judaica, convidara. E muitos vieram, também
proeminências políticas, eclesiais e sociais, entre outras também o presidente dos
ministros do país anfitrião e até o Presidente da Federação. A Medalha
Buber-Rosenzweig, a condecoração mais alta das associações cristãs-judaicas, foi
conferida ao Ministro de Negócios Exteriores da Republica Federal, Joschka Fischer, e o
Presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, Paul Spiegel, fez o panegírico.
Não só bagatelas, certamente. Expressão de respeito mútuo, até de confiança
crescida. De fato, ao relacionamento entre cristãos e judeus se tem mudado fundamentalmente
nos últimos cinqüenta anos. Por séculos, os relacionamentos estavam sob o augúrio de
adversidade ideada e inimizade praticada, e desdém e perseguição até à eliminação, no
lado cristão, e, no lado judaico, aversão, defesa e delimitação determinavam o
relacionamento. Na sombra da Shoáh, ia-se preparando um processo de volta e de repensar. As
Igrejas cristãs começaram avistar criticamente as suas atitudes antijudaicas tradicionais,
confessar falhar culposo e entrar em novos caminhos no relacionamento aos judeus e ao Judaísmo.
A defesa contra o anti-semitismo, a promoção da comunidade judaica e o intervir a favor do
direito de existência do Estado de Israel chegou a ser pilar fundamental da política
democrática alemã. Para isso acontecer, as Associações para a Cooperação Cristã-Judaica,
fundadas desde 1948 na velha República Federal, não por último, realizaram trabalho
importante de base. Quem o conhece bem, quem conhece as ramificações dos mencionados
processos vai confirmar isso.
E não obstante, apresenta-se hoje a pergunta, se o diálogo cristão-judaico terá ainda
futuro ou será um modelo para se perder. Até que ponto o alcançado até agora vai se
provar resistente?
Já agora várias coisas se estão desmoronando, ressaltam mudanças ameaçadoras e rejeições.
Tendência antijudaica e anti-semítica - como borra sempre existente - faz-se notar na
nossa sociedade republicana federal aumentando, deixa-se novamente até instrumentalizar
politicamente. Velhos fantasmas de mentalidade racista saem das suas caves, mexendo-se em
plena publicidade. Também nos pisos das elites sociais caem as soleiras de inibição. O
fim da “veda” para os judeus está sendo declarado. Mas não só isso. O próprio diálogo
cristão-judaico perde de velocidade, por várias razões. Já desde sempre era - aqui como
ali - só coisa de poucos. E agora se vai a geração dos imediatamente atingidos pela Shoáh.
O tema de vida dos descendentes não está sendo mais na sombra do passado. Muitos, a isso,
sabem só pouco ou completamente mais nada que fazer com a componente religiosa contida no
conceito “cristão-judaico”, não só nos novos Países da Federação, mas também nos
antigos. A “necessidade” de relacionamentos cristãos-judaicos está diminuindo. Isso
vale para ambos os lados.
A comunidade judaica está, mais do que nunca, diante da tarefa, depois da destruição
da vida judaica rica em tradição, de voltar a ganhar chão na Alemanha e encontrar forma.
As famílias judaicas imigradas dos países da antiga União Soviética querem ser
integradas social e culturalmente; e, além disso, é preciso cuidar para que finquem pé
também religiosamente. Como se pode, então, meter-se em grande escala na temática de relações
cristãs-judaicas? A isso vêm reservas em princípio. Na memória coletiva, em parte também
na memória pessoal, o vis-à-vis cristão está carregado com traços petulantes, ameaçadores.
Alguns, nomeadamente círculos ortodoxos, recusam o diálogo cristão-judaico porque o
suspeitam um como modo disfarçado de subversão cristã.
Também no lado cristão, o interesse estagna, em parte está até diminuindo. Nos
lugares de formação acadêmica da nova geração teológica, nas faculdades teológicas e
escolas superiores, o conhecimento do Judaísmo e o relacionamento judaico-cristão, como
dantes, jogam um papel subordinado. São lutadores isolados que se dedicam a isso. Nas
ordens de estudos e exames, tal coisa é, se de algum modo, somente marginalmente ancorada.
As variedades neoliberais e neoconservativas, que estão voltando a se divulgar nas
teologias protestante e romana, não vêem nenhum assunto central na relação com o Judaísmo;
ambas defendem, antes, a superioridade cristã. E nas Igrejas? As suas publicações de
princípio são dialogadamente juradas, mas, nas bases, isso ainda não se espalhou por toda
a parte. Sons de missão aos judeus não soam somente em grupos piedosos fundamentalistas,
mas também alguns oficiais os fazem ouvir. Embora ações missionárias fiquem
desaprovadas, mas com renúncia unívoca teologicamente fundada muitos têm as suas
dificuldades. Entretanto, embora indicações fossem incluídas em algumas ordens eclesiais
de base, - nas quais a ancoragem da fé cristã na historia de Deus com o povo judaico está
sendo enfatizada, sendo falado da aliança não revogada de Deus com o seu povo, - isso
sucedeu não sem resistências óbvias, ficando ainda restrito a algumas poucas províncias
eclesiais. E, em muitos lugares, formam-se movimentos, os quais restringem o que até agora
foi alcançado, distanciando-se disso ou até o pondo em dúvida. Atuais são, em todo o
caso, outros assuntos e questões. Problemas internos, a crescente diminuição de membros,
a perda de relevância social preocupam as Igrejas. Como freio nos relacionamentos cristãos-judaicos
funciona, a isso, o conflito israelense-palestinense. Lealdade crítica vira distanciamento
crítico unilateral. Fazer justiça a ambos os lados se consegue dificilmente.
Tudo isso não representa muitas perspectivas boas para a continuação do diálogo.
Semanas de fraternidade, seja tão impressionantemente como forem inauguradas, não poderão
ocultar isso. O quê será que fique? Desistir, retirar-se? Ao contrário. Como dantes, vale
o que, faz cinqüenta anos, Leo Baeck assentou na sombra do passado e com olhar ao futuro:
“O Judaísmo e a Cristandade devem ser exortação e advertência: a Cristandade a consciência
do Judaísmo e o Judaísmo a consciência da Cristandade. Essa base comum, essa
possibilidade comum, essa missão comum, a cujo reconhecimento estão sendo conduzidos, será
para eles uma chamada para irem ao encontro uns aos outros. E, então ambos serão capazes
de ocuparem juntos o seu lugar, não um contra o outro, mas sim lado a lado diante o foro do
Onipotente, do tribunal, diante o qual os judeus e os cristãos se entendem ser citados cada
dia igualmente.” Essa missão permanece, mais urgente como nunca, face à rejeições
globais e locais do nosso tempo. Se o projeto do diálogo cristão-judaico tenha perspectiva
para o futuro, decidir-se-á enquanto os judeus e os cristãos, as judias e as cristãs se
conseguirem conciliar assim que levantem - em questões de princípio sociais, e também em
questões particulares de lugar e perante um mundo cada vez mais secularizado - a sua voz,
chegando a ser ativos junto. O que até agora sucedeu, sob o augúrio do dialogo cristão-judaico,
eram trabalhos preparatórios para isso, necessários, trabalhos preparatórios no sentido
pleno. Várias, até muitas coisas foram alcançadas nisso. Mas a prova, orientada pela
cooperação real, fica por vir. E para isso, precisa-se possivelmente duma geração mais
jovem, mais nova de parceiros de diálogo. A palavra do profeta Miquéias (6,8), que serve
de base para o tema deste ano das Associações para a Cooperação Cristã-Judaica, podia
dar o acorde básico: “Foi-te anunciado, homem, o que é bom; e o quê Ele exige de ti senão
praticar justiça e amor e andar humilde com o teu Deus.”
Texto alemão em: Jüdische
Allgemeine Wochenzeitung, 12 de março de 2003
Tradução: Pedro von Werden
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